
O uso do turbante no Marrocos.
Data: 08/04/2022
Autor: Martina Catini Trombeta
Em cada região do Marrocos existe uma tradição distinta em relação ao turbante.
E trago uma curiosidade que talvez muitos não saibam: ele não tem valor estritamente religioso, ao contrário de outras regiões do continente africano.
De todo modo, é muito importante culturalmente e é usado além dos fins religiosos, também como proteção ao sol e como estética.
A pashmina marroquina tem seu uso preservado, especialmente pelos berberes, que fazem parte das primeiras povoações do Marrocos há cerca de 3000 mil anos.
Nos rápidos três dias que estive em Marrakech tive a oportunidade de conversar com gente local (dentre os funcionários do Riad em que me hospedei, os guias de passeios e trabalhadores dos comércios), e trago algumas informações super interessantes:
Os berberes usam turbantes curtos (até 2 metros) e amarelos;
Na região conhecida como Anti-Atlas (ou Pequeno Atlas), que é uma cordilheira montanhosa no sudoeste do Marrocos, usa-se turbante preto de tamanho médio 6 metros.
Já na região Daraa e Tafilalet, o turbante utilizado é colorido entre 6 e 22 metros.
No deserto do Saara, os turbantes têm no máximo 6 metros, sendo que as cores tradicionais são branco, cinza ou preto.
Nas cidades médias e centrais os turbantes entre os jovens vêm diminuindo pouco a pouco. São coloridos e pintados artesanalmente com plantas da região, sendo que a alfafa dá a cor verde, a páprica dá o vermelho e o açafrão proporciona o amarelo aos tecidos. A fixação das cores naturais é feita com vinagre e limão, seguido da exposição do tecido por 3 dias no sol.
Depois de trazer essas informações e curiosidades, trago os meus relatos pessoais acerca da minha experiência em Marrakech, e digo que às vezes não nos demos conta do quanto uma viagem pode impactar em nossas vidas, é isso se potencializa quando estamos suscetíveis a viver a experiência de uma nova cultura.
Quando nos deparamos com algo tão diferente à nossa cultura, em um primeiro momento isso pode assustar, porém a imersão cultural é extremamente proveitosa.
E Em uma viagem curta ao Marrocos, visitei a cidade de Marrakech, que descobri durante os dias que estava lá que é uma das mais abertas do país em relação à aceitação de outras religiões (são sunitas).
Após ter um guia local para recorrer a cidade, tomei jan decisão, usaria o turbante todos os dias e igualmente não exporia as partes do meu corpo, e entendam que não me refiro a decotes e roupas curtas, falo em braços, pernas, de uma forma geral, o que de fato abarca as partes que nós, na cultura ocidental, estamos acostumadas a mostrar.
Pedi ao meu guia que me acompanhasse em uma tenda no mercado local para que eu comprasse uma pashmina (investimento Marroquino imprescindível, diga-se de passagem), e pacientemente e com dedicação não me dei por satisfeita até que estivesse colocando sozinha em minha cabeça à maneira deles.
E confesso que, depois disso, minha viagem tomou um sentido distinto, com uma experiência que talvez eu jamais tivesse pensado em viver. Integrar e respeitar a cultura deles me fez despertar, olhar mais nos olhos e me atentar ao comportamento das pessoas, assim como ao conteúdo das conversas com o outro.
Antes de passar as análises que quero dividir, gostaria de dizer que esses são os meus relatos, e não têm o objetivo de estabelecer um juízo de valor ou dizer o que é certo ou errado quando falamos de diversidade cultural, simplesmente são minhas percepções e análises, que podem ou não fazer sentido para você.
Sigo, após aquele momento, de falar com pessoas locais e dizer que eu estava me dispondo a respeitar e integrar, mesmo que minimamente, a cultura islâmica, todos que tive a oportunidade de conversar manifestaram gratidão por minha atitude.
No primeiro dia, achei super estranho não estar todo o tempo preocupada com meu cabelo, o qual “atraente” estava por usar uma saia, um vestido mais curto, ter as pernas à mostra, quais das minhas tatuagens estavam sendo vistas.
Pouco a pouco, fui me dando conta que os olhos e o comportamento devem ser mais observados. E que temos demasiada preocupação com o “chamar atenção” com nosso corpo em ambientes que não fazem o menor sentido.
Por exemplo, qual a finalidade de que a primeira coisa que alguém veja em você seja seu colo peitoral, se sequer houve uma troca de olhares, e na sequência uma conversa?
É nesse sentido que falo, e que entendo que vale a pena refletir. Vivemos em uma cultura da exacerbação do sexismo, seja por homens ou mulheres. Queremos que as pessoas nos vejam, antes, pelo físico, pelo corpo, quando, na verdade, os olhos são o nosso cartão de visitas mais sincero.
Quando digo isso, longe de mim dizer que a tal atração física não é importante, apenas que a ordem das coisas, talvez se inversas, trará conexões mais verdadeiras.